Caro leitor, que a história se repete não é novidade pra ninguém. Mas quem poderia imaginar que ela faz reprise com um elenco ainda pior? George Orwell, no livro 1984, escreveu sobre um regime que apagava palavras para apagar futuros. Décadas depois, estamos vendo Trump importar o roteiro para a Casa Branca e declarar guerra a termos como “equidade” e “crise climática”. Pode até parecer mera retórica, mas não é: estamos falando de geopolítica em sua forma mais cínica. Quem controla o vocabulário domina muito mais do que os discursos, domina o petróleo, as alianças e a própria noção de realidade.
O Novilíngua de Orwell buscava eliminar nuances; o Trumpilíngua quer ressuscitar uma “América tradicional” onde desigualdades existiam, mas eram tratadas como fantasmas em um baile de máscaras. Não podemos nos enganar: Orbán, Modi, Erdogan — todos assinam o mesmo manual autoritário. Reescrevem manuais escolares, censuram a mídia, transformam “gênero” em tabu. O presidente Donald Trump, ao se juntar ao clube, sinaliza para o sistema internacional: “Os EUA estão se demitindo do papel de arquiteto liberal. Agora somos um país nostálgico da gasolina barata da 'era de ouro’
A ironia? O suposto paladino do neoliberalismo, que prega “Estado mínimo”, usa o aparato estatal para censurar até relatórios científicos. No que tange às Relações Internacionais, enquanto Trump brinca de ditador no mercado de ideias, Friedman e Hayek assistem, do túmulo, o neoliberalismo virar uma Operação Condor da linguagem - onde termos como 'direitos humanos' e 'justiça climática' estão desaparecidos. Mas é claro que Trump defende o “livre mercado”, contanto que o mercado ecoe seu monólogo do neoliberalismo de conveniência que protege os monopólios e silencia as críticas.
E aqui, a teoria importa: construtivistas como Alexander Wendt lembram que palavras são tijolos de realidades políticas. Apagar “BIPOC” de documentos oficiais não só é racismo como é uma sabotagem às redes de cooperação que sustentam a ONU. Como exigir que Myanmar julgue um genocídio se Washington trata racismo estrutural como “delírio acadêmico”? É o duplipensar em ação: “Promovemos direitos humanos! (desde que não mencionem corpos marginalizados)”. Enquanto Trump substitui “crise climática” por “energia limpa” para agradar o lobby do petróleo, a China preenche o vácuo, vendendo-se como líder verde para o Sul Global.
O Acordo de Paris? Definha. Enquanto Pequim instala paineis solares na África, os EUA viram figura caricata no xadrez geopolítico. Até a Rússia ri. E o dólar, moeda hegemônica, estremece junto com a credibilidade de Washington. O grande cerne está no realismo clássico: a história é o laboratório onde se testam ambições de poder. Negar o colonialismo ou a escravidão (como fazem algumas leis estaduais nos EUA) não apaga as feridas, muito pelo contrário, só as infecta. É a tática de Erdogan, que nega o massacre armênio, ou de Netanyahu, que apaga a Nakba. Quem controla o passado controla as desculpas para ocupar o futuro. Trump, ao reescrever a história, está pavimentando uma política externa baseada em mitos e não em fatos. Em um mundo com armas nucleares e
clima em colapso, isso é um verdadeiro roteiro de catástrofe. E qual a saída? Resistir com as armas que nos restam: palavras precisas. Quando a Casa Branca censura “ciência climática”, enfraquece até a NASA. Quando ridiculariza “ideologia de gênero”, embaraça diplomatas na ONU. Mas, como diria Chico Buarque, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.
Devemos tratar a linguagem como patrimônio estratégico, algo que deve ser defendido por tribunais internacionais, movimentos sociais e até por você, leitor, que compartilha threads às 2h da manhã. Orwell já alertou: “A liberdade é dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”. Hoje, é sobre recusar o silêncio que querem nos vender. No fim das contas, Trump pode até brincar de Grande Irmão, mas tem um detalhe: essa geração sabe que palavras são sementes. E, como muitas Marias, Marianas, Juliás e Marcelas do mundo provam: as nossas narrativas não cabem em manuais de censura

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