Hoje, lembramos o dia da promulgação da Constituição Cidadã. Para as gerações mais novas, como a minha, eu, que nasci em 1998, por exemplo, e não fiz parte daquela discussão é fácil não compreender a dimensão daquela Carta Magna. Aquilo não é apenas um conjunto de papéis com palavras e artigos. São os fundamentos para a construção de uma nação que tentava sair do caos, que vinha de uma ditadura que matou, torturou e perseguiu pessoas.
Aprendi que a função da História e de quem a ensina é, acima de tudo, lembrar. É não deixar que o esquecimento tome conta daquilo que todos gostariam de apagar. E nós não podemos esquecer o significado do AI-5, da retirada de direitos, da perseguição, do exílio e da tortura.
Neste momento de intensos debates e, sim, de ruptura institucional no sentido retórico da palavra, defender um livro de palavras pode não parecer resolver os problemas. Mas há uma figura central nisso tudo: a importância da transição democrática. Se hoje você pode expressar livremente as suas opiniões, seja nas redes sociais ou nos púlpitos das câmaras municipais, é porque pessoas como Maurício Fruet, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Leonel Brizola e tantos outros lutaram pela volta da Democracia neste país.
Lembro de meu pai, Seu Jurdivino, que lá em Ortigueira, junto com o Dr. Nilson Gorski, montou o MDB na cidade. Meu velho pai nunca teve a dimensão do que era, em 1978, montar o MDB na cidade. Mas hoje eu sei, depois de várias vezes ele contando, que ele fazia política na bala e fugindo das emboscadas dos candidatos da Arena. De burro marchador, caminhando pelo interior, do Lajeado até no Sapé, Natingui, para montar um partido de oposição.
A democracia não é um ato isolado de 10 ou 15 pessoas que resolvem um problema. A democracia é um ato e uma construção cotidiana.
Nossa função, enquanto historiadores, professores, ou simplesmente cidadãos atentos, é mostrar às novas gerações o que significa a coragem. A coragem não é um capricho, é um ato de necessidade. E o momento político que vivemos hoje pede essa coragem.
Quando penso em desistir da política, lembro do Deputado Gernote Kirinus, na Pastoral da Terra ou como pastor luterano em Marechal Cândido Rondon. Naquele tempo, a ditadura tinha altos níveis de aprovação, e ele estava ali dizendo que o MDB precisava ser construído, que o pensamento de oposição precisava existir.
Quando me sinto tentado a recuar, lembro de Maurício Fruet chamando trabalhadores nas pequenas cidades para montar um partido que seria “vestido de povo” e que tinha uma bandeira chamada Democracia. Lembro que o golpe de 1964 foi contra os trabalhistas, contra Jango, Brizola e Darcy Ribeiro, que não aceitavam a miséria como forma de governo.
Cabe a nós uma função histórica: a defesa da democracia. E não é a democracia em um sentido abstrato, que não contempla a vida das pessoas. É a democracia no seu dia a dia. É ela que permite que hoje você possa ter trabalho, renda e, principalmente, que seus direitos sejam garantidos. É ela que impede que seu filho, seu esposo ou sua esposa sejam retirados pela polícia de forma arbitrária.
Em Curitiba, quantas vezes ouvi da boca de Silvio Sebastiani, sobre a visita a presos políticos. A ditadura não aconteceu apenas em São Paulo, Rio e Minas. Aconteceu aqui. Pessoas foram torturadas e exiladas por defenderem a democracia.
Se esta Carta Magna tem essa função, ela tem um papel central nas letras ali estabelecidas: a defesa da nação deve mudar, e quem sua e luta por ela deve ter voz.
Neste dia, relembramos a importância de ter coragem. Não é fácil, mas é necessário. Não é fácil estar à frente e lutar contra esses dragões, mas também não é impossível. Aqueles que silenciam diante das adversidades jamais saberão o verdadeiro valor da resistência. A história é um vento que sopra na cabeça de quem luta.

Comentários: