Sempre me questiono se minha defesa da política tradicional não está em desencontro com o que a população realmente quer. Estava analisando os últimos candidatos a vereador mais votados do Brasil e encontrei dois pontos em comum: primeiro, a capacidade de se comunicar nas redes sociais com efetividade; segundo, a disposição de “pôr a mão na lama”.
O que isso significa? Jogar para a plateia, transformar a política em um talk show, um show de horrores, um circo. Hoje, figuras como Marco Maciel e Jungmann, que faziam uma política mais discreta, talvez não tivessem espaço. Mesmo políticos com grande oratória e capacidade política, como Marco Freire, não caberiam mais na política atual, pois respeitavam certas regras e etiquetas. José Richa, um político do diálogo que começou na cozinha do governador Ney Braga, se tornou oposicionista e, mais tarde, governador do Paraná. Mas há espaço para figuras como Rui Barbosa, que pensava o Brasil e se preocupava com seu futuro?
O que eu vejo agora é que os políticos tradicionais estão perdendo voz e vez no processo político. Como disse o ex-senador Lacto Fortes: “Ninguém se preocupa mais com o Brasil, só com a verba”. Estamos acostumados às discussões rasas das redes sociais, ao jogo do centrão, às negociatas, aos milhões circulando por debaixo dos panos e às decisões tomadas nos melhores restaurantes de Brasília. Isso acontece com cada vez mais intensidade.
Mesmo partidos tradicionais entenderam que precisam equilibrar política convencional e a política do digital. Veja, por exemplo, o Republicanos, que elegeu Hugo Motta: ao mesmo tempo em que faz articulações políticas, também aposta forte na comunicação digital. Basta olhar o Instagram do presidente Hugo Motta. No entanto, só as eleições de 2026 mostrarão o impacto real dessas mudanças.
Na conjuntura atual, o que vale é aquele ditado: “O ovo da galinha é mais famoso porque ela cacareja mais alto”. Ou seja, quem grita mais, aparece mais. Mas é difícil gritar e se fazer ouvido nesse espaço tão caótico que chamamos de política. É por isso que muitos políticos sujam as mãos com pautas irrelevantes para o debate nacional, porque sabem que isso gera engajamento.
Para onde isso vai nos levar? Não sei. Mas veja a Europa, por exemplo: na Alemanha, 20% do eleitorado votou na extrema-direita. Uma de suas líderes é uma mulher lésbica, casada com uma imigrante, mesmo pertencendo a um partido que, em sua essência, é contra tudo isso. É contraditório, mas no cenário atual, o que vale não é a prática, e sim o discurso.
Sempre usei uma frase nos meus textos: “A prática é o critério da verdade”. Mas será que ainda é? Hoje, a prática parece ser o critério do like e do engajamento nas redes sociais.
Agora, você pode me perguntar: “Luan, você critica o uso excessivo das redes sociais, mas escreve para um portal e publica no Instagram. Que moral tem para falar sobre isso?” A diferença é que eu não sou candidato. Posso falar livremente dentro do meu espaço de comunicação. Se fosse candidato, usaria as mesmas ferramentas para levar minhas ideias o mais longe possível. O problema é que a eleição continua cara e milionária.
Hoje, não se paga mais um cabo eleitoral para segurar bandeiras na esquina. Paga-se Mark Zuckerberg e suas plataformas digitais para levar sua imagem ao maior número possível de pessoas. Os métodos mudaram, mas a política em si não. Antes, contratava-se Zezé Di Camargo e Luciano para cantar em comícios. Agora, políticos fazem collabs com influenciadores digitais. A verdade se relativizou, e qualquer um pode dizer qualquer coisa.
Fake news sempre existiram, mas hoje ganharam outra dimensão. A grande questão é: como fugir desse ciclo vicioso?
Como historiador, cabe a mim assistir a documentários sobre o Congresso Nacional, estudar a trajetória de figuras como Marco Maciel, Waldir Pires, Sarney, Marco Freire e tantas outras lideranças que passaram pelo Parlamento. No entanto, me preocupa que todo político que morre vire um bom samaritano. O passado é importante, mas são as tendências que ditam as regras do jogo. E a tendência atual é clara: disputa-se a política nas redes sociais.
Não há outro caminho além do posicionamento, do engajamento e do debate público. Mas e aqueles deputados do centrão que não têm presença digital? O que fazem? Rezam para que suas emendas consigam “comprar” os eleitores de Xique-Xique, na Bahia.

Comentários: